Uma reportagem sobre as escolas portuguesas

A humanização da escola

As aulas terminaram. Estamos em plenas férias escolares. Este facto não impede que se fale dos problemas da escola. A ideia de que, no Verão, na chamada “silly season” dos jornais, não são tratadas questões importantes, deve ser banida dos nossos hábitos.
Precisamente o diário de referência Público abordou, no início desta semana, um tema de grande relevância para a sociedade. Falamos da análise dos relatórios de avaliação que a Inspecção – Geral do Ensino realizara em 300 escolas do País.
O jornal promoveu uma série de reportagens nestas escolas. Em jeito de balanço, pediu a especialistas para explicarem o segredo do sucesso das quatro escolas consideradas as melhores.
As conclusões dos especialistas merecem uma reflexão tão profunda quanto possível por parte dos professores, pais, encarregados de educação, famílias e responsáveis do Governo.
Até agora a palavra humanização era quase somente aplicada ao ambiente dos hospitais. Eis que Helena Marujo, doutorada em Psicologia, põe o dedo na ferida, em relação às escolas: “A grande chave do sucesso prende-se com as questões relacionais. Só os professores que se dão afectivamente aos alunos, que investem numa relação individualizada, respeitadora e atenta às características e interesses dos alunos é que têm sucesso”.
Joaquim Azevedo, investigador, pensa da mesma maneira e exemplifica: “O presidente do Conselho Executivo da escola de Gaia tem atitudes de uma cortesia imensa em termos de acolhimento dos alunos. Felicita-os no seu dia de anos”. E acrescenta: “Na maioria das escolas do País, os alunos conhecem a ida ao Conselho Executivo como a hora da reprimenda que, infelizmente, serve para muito pouco”. E Helena Marujo confirma: “Os professores têm muito medo de ser humanos. Deixam de fora as emoções e tentam transmitir de uma forma emocionalmente neutra a informação que o currículo exige”. E explica as razões de tal atitude pelo facto da “cultura negativa” existente em Portugal. “Esta cultura negativa vê nos alunos e no processo de aprendizagem aquilo que não é positivo e não funciona”.
Sem pôr em questão o valor das novas tecnologias, e do uso dos computadores, comprova-se que basta o tradicional giz e o quadro, para haver boas aulas. “O essencial é o professor e o resto é secundário”. Helena Marujo cita o depoimento de um aluno sobre uma “aula fantástica de Francês em que se debatia o amor”. E comenta: “Eles estiveram a treinar e a corrigir o Francês mas a partir de um tema que lhes interessa. Esta adaptação aos interesses das crianças e adolescentes, este não ter medo de ser humano é fundamental”.
A conclusão afigura-se óbvia: “Ou a escola começa a ser atraente ou os níveis de insucesso e abandono vão aumentar. Como é que se atrai? Com ensinos atentos às necessidades e particularidades dos alunos.” Aqui centra-se o fulcro da questão. E por mais reformas que haja, não se resolve o problema. O investimento no relacionamento com os alunos é pedra de toque para o sucesso escolar.
As actividades extracurriculares constituem um dado básico para a criação de “um clima favorável à aprendizagem”. “O exemplo da professora da escola de Boticas que, para ensinar Matemática, encena uma peça com os alunos”, convida a pôr a imaginação a trabalhar.
Joaquim Azevedo valoriza o clima escolar com a certeza de ser um elemento de sucesso. Elemento constituído “pelas atenções, atitudes dos professores, organização da escola, dos espaços e da relação com as famílias”.
Um factor comum às melhores quatro escolas assenta na capacidade de liderança. No caso em análise, trata-se, na expressão de Joaquim Azevedo, de “lideranças muito próprias e específicas”. “Em Portugal, não formamos líderes de escolas, desprezamos bons líderes de escolas, não financiamos líderes de escolas”. E o especialista enfatiza: “O Ministério da Educação devia criar incentivos à boa liderança das escolas, desde remuneratórios a apoios específicos”.
No mesmo sentido, João da Silva Amado, ex-docente do Secundário, actualmente professor no Ensino Superior, nota que em qualquer das escolas “temos lideranças fortes”, directores empenhados”, “com grande energia”.
Os depoimentos destes especialistas mostram como é possível, caso o Ministério da Educação não se limite a mandar só circulares normativas, a travar o insucesso e o abandono das escolas. Lembre-se que um alto número de alunos não chega a concluir o 9º ano.
Então mãos à obra. Professores, pais, famílias, responsáveis educativos cumpram o que lhes compete. E não tenham medo de “ser humanos”.

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José Geraldes, no 

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